Este conto foi criado por Victoria, da 906, com
a finalidade de ser uma espécie de ‘continuação’ de outro conto machadiano
chamado “Quem Conta um Conto...”.
UM SEGREDO DESCOBERTO
Teresa
Maria, sobrinha do Major Gouveia, costurava calmamente quando a escrava veio
lhe chamar. O jantar estava posto.
Assim
que se sentou, logo ouviu uma voz conhecida e levantou a cabeça do prato. O seu
amado tio estava na outra ponta da mesa. Este bebia um delicioso vinho e ria
consigo mesmo enquanto chamava a atenção dos presentes para escutarem um fato
curioso que ocorrera outro dia.
Uma aragem forte
açoitava o rosto jovem e belo da moça, fazendo seus compridos e castanhos
cabelos dançarem junto da saia longa e verde bordada em rosa de seu vestido.
Ela se encolhia, mas não
desistia. Um rapaz alto de cabelos amarelos como palha se aproximou, um sorriso
no rosto. Mas este logo desapareceu quando viu que a moça não correspondeu a
ele, como de costume.
– Teresinha, minha
amada, o que houve? Por que tu não estás sorrindo, meu tambor de mina?
– É sobre o meu tio.
Ele... descobriu tudo.
O jovem empalideceu
imediatamente e de sua boca trêmula, um murmúrio que quase não dava para se
ouvir saiu. “Mas... Como?”.
– Ele comentou algo
como “Castigarei minha sobrinha se ela deitar os olhos em algum alferes, justo
estando para casar!”. E parece que seus conhecidos distorceram os fatos,
passando pela trama de nossa fuga!
Ela abaixou a cabeça
e a sacudiu em um ato desolado, escondendo o rosto nas mãos delicadas.
O amante passou os
dedos pelos cabelos de Teresa, e esta só conseguiu olhar para ele, os olhos
brilhando triste sob a luz do luar, como se perguntassem “E agora, o que
faremos?”.
– Vamos fugir
imediatamente – ele disse subitamente.
Teresa arregalou os
olhos em espanto.
– Estás louco! Assim,
tão de repente? Aliás, há algo que quero lhe dizer há muito: Jamais farei isso!
– Por que não,
Teresa? – o homem já se revoltava.
– Ora, Giles, eu
nunca teria coragem de cometer tamanha traição contra a minha família! O
primeiro grupo social com o qual me envolvi! Com o qual eu continuo a me
envolver! Está certo, escondo a verdade deles por sua causa, mas eu jamais
seria capaz de fugir, simplesmente ignorando tudo o que fizeram para mim, para
meu bem, sendo uma ingrata por todos os sacrifícios feitos!
Giles gritou alguma
coisa que não pôde ser ouvida por causa do vento uivante e cortante da baía e
ele cruzou os braços, dando as costas logo em seguida.
Foi um ato infantil
de criança mimada e Teresa sabia disso, mas ela apenas conseguiu fazer algo
similar: ela abraçou a si mesma, se virou e deu quatro passos, se afastando. Em
seguida, ela parou e começou a se embalar do mesmo modo que se embala uma
criança de colo.
Depois de minutos sem
trocar uma palavra sequer, Teresa finalmente tomou a iniciativa:
–... Não há algo que
possamos fazer?
–... Há, há sim,
Teresa Maria.
Os dois se viraram e
Giles foi ao encontro da moça. Ele a segurou firmemente pelos ombros e deu um
sacudida leve, assustando um pouco.
– Seguiremos nossas
vidas.
– Não, Giles, não...
– Admita, isso jamais
poderia dar certo. Tu és nobre, eu sou um mero alferes.
– Mas eu não quero me
separar de você.
– E você não precisa.
– Porque eu sempre o
terei em meu coração? – e ela sorriu.
Silêncio.
– Na verdade, eu iria
dizer que poderíamos nos encontrar em segredo, mas se é assim que tu queres...
– Não, Giles, eu
prefiro do seu modo. É muito melhor.
– Então está
decidido.
Os dois se
aproximaram e seus lábios se juntaram em um beijo que selou a promessa de os
dois seguirem suas vidas e seus respectivos caminhos, mas se encontrando
ocasionalmente e com aleatórios intervalos para não gerar suspeitas.
Sabiam que isso não
iria durar para sempre e que até o próximo encontro seria um bom tempo de
espera. Por isso eles se abraçaram e ficaram admirando a linda paisagem de
Botafogo naquela ventosa noite de outono.
O inverno estava
prestes a chegar. E não era só para a cidade.