terça-feira, 10 de julho de 2012

Machado de Assis: "Quem conta um conto..." e Victoria Becker: "Um segredo descoberto"

Este conto foi criado por Victoria, da 906, com a finalidade de ser uma espécie de ‘continuação’ de outro conto machadiano chamado “Quem Conta um Conto...”.


UM SEGREDO DESCOBERTO
Teresa Maria, sobrinha do Major Gouveia, costurava calmamente quando a escrava veio lhe chamar. O jantar estava posto.
Assim que se sentou, logo ouviu uma voz conhecida e levantou a cabeça do prato. O seu amado tio estava na outra ponta da mesa. Este bebia um delicioso vinho e ria consigo mesmo enquanto chamava a atenção dos presentes para escutarem um fato curioso que ocorrera outro dia.
Uma aragem forte açoitava o rosto jovem e belo da moça, fazendo seus compridos e castanhos cabelos dançarem junto da saia longa e verde bordada em rosa de seu vestido.
Ela se encolhia, mas não desistia. Um rapaz alto de cabelos amarelos como palha se aproximou, um sorriso no rosto. Mas este logo desapareceu quando viu que a moça não correspondeu a ele, como de costume.
– Teresinha, minha amada, o que houve? Por que tu não estás sorrindo, meu tambor de mina?
– É sobre o meu tio. Ele... descobriu tudo.
O jovem empalideceu imediatamente e de sua boca trêmula, um murmúrio que quase não dava para se ouvir saiu. “Mas... Como?”.
– Ele comentou algo como “Castigarei minha sobrinha se ela deitar os olhos em algum alferes, justo estando para casar!”. E parece que seus conhecidos distorceram os fatos, passando pela trama de nossa fuga!
Ela abaixou a cabeça e a sacudiu em um ato desolado, escondendo o rosto nas mãos delicadas.
O amante passou os dedos pelos cabelos de Teresa, e esta só conseguiu olhar para ele, os olhos brilhando triste sob a luz do luar, como se perguntassem “E agora, o que faremos?”.
– Vamos fugir imediatamente – ele disse subitamente.
Teresa arregalou os olhos em espanto.
– Estás louco! Assim, tão de repente? Aliás, há algo que quero lhe dizer há muito: Jamais farei isso!
– Por que não, Teresa? – o homem já se revoltava.
– Ora, Giles, eu nunca teria coragem de cometer tamanha traição contra a minha família! O primeiro grupo social com o qual me envolvi! Com o qual eu continuo a me envolver! Está certo, escondo a verdade deles por sua causa, mas eu jamais seria capaz de fugir, simplesmente ignorando tudo o que fizeram para mim, para meu bem, sendo uma ingrata por todos os sacrifícios feitos!
Giles gritou alguma coisa que não pôde ser ouvida por causa do vento uivante e cortante da baía e ele cruzou os braços, dando as costas logo em seguida.
Foi um ato infantil de criança mimada e Teresa sabia disso, mas ela apenas conseguiu fazer algo similar: ela abraçou a si mesma, se virou e deu quatro passos, se afastando. Em seguida, ela parou e começou a se embalar do mesmo modo que se embala uma criança de colo.
Depois de minutos sem trocar uma palavra sequer, Teresa finalmente tomou a iniciativa:
–... Não há algo que possamos fazer?
–... Há, há sim, Teresa Maria.
Os dois se viraram e Giles foi ao encontro da moça. Ele a segurou firmemente pelos ombros e deu um sacudida leve, assustando um pouco.
– Seguiremos nossas vidas.
– Não, Giles, não...
– Admita, isso jamais poderia dar certo. Tu és nobre, eu sou um mero alferes.
– Mas eu não quero me separar de você.
– E você não precisa.
– Porque eu sempre o terei em meu coração? – e ela sorriu.
Silêncio.
– Na verdade, eu iria dizer que poderíamos nos encontrar em segredo, mas se é assim que tu queres...
– Não, Giles, eu prefiro do seu modo. É muito melhor.
– Então está decidido.
Os dois se aproximaram e seus lábios se juntaram em um beijo que selou a promessa de os dois seguirem suas vidas e seus respectivos caminhos, mas se encontrando ocasionalmente e com aleatórios intervalos para não gerar suspeitas.
Sabiam que isso não iria durar para sempre e que até o próximo encontro seria um bom tempo de espera. Por isso eles se abraçaram e ficaram admirando a linda paisagem de Botafogo naquela ventosa noite de outono.
O inverno estava prestes a chegar. E não era só para a cidade.

***

Para quem quiser ler o conto de Machado: http://www2.uol.com.br/machadodeassis/machado.html

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