"Olhou a caatinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo – anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas – ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como Seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
-- Um homem, Fabiano."
Li "Vidas secas" no ensino médio por indicação da escola. Talvez tenha sido um dos primeiros livros de que verdadeiramente gostei apesar de ser "para o colégio". A realidade da seca parece distante de nós. No entanto, o livro é tão bem escrito, o sofrimento parece tão universal que todos nós nos sentimos parte da família de retirantes. Há um episódio lindíssimo que espero comentar depois, quando Bianca avançar na leitura. Por enquanto, sugiro que observem esta imagem, de Portinari: http://www.proa.org/exhibiciones/pasadas/portinari/salas/id_portinari_retirantes.html Ela retrata uma família como a que protagoniza o livro de Graciliano.
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